A vida vale mais que o ouro
(Davi Kopenawa)
Quando um Yanomami morre, seus objetos são destruidos, seu cão sacrificado, seus abrigos de caça devastado . Ninguém fala daquele que se foi. E, no entanto, todos desejam que seu espírito continue a animar a Terra. Colocado em posicao fetal, com o rosto pintado de negro, o morto fica envolvida em sua própria rede, dentro de uma caixa de madeira entre duas árvores. Mais tarde, depois de cremado, parte de suas cinzas são consumidas pelos amigos, que Ihe deseiam absorver os dons e os forças. Treze de agosto de 1993. Na aldeia Hoximu, na Serra Parimã, nao houve a Festa dos Mortos para dezenas de Yanomamis assassinados por garimpeiros brancos. Inicialmente, imaginou‑se que o massacre havia ocorrido em terras brasileiras, mas investigações posteriores concluiram que as mortes ocorreram em território venezuelano. Brasil ou Venezuela, o local nao é tão relevante ‑ pelo menos para o artista plástico Klinger Carvalho, que na exposição “Hoximu” lembra o genocídio Yanomami. Para Klinger, mais importante é denunciar que o massacre dos índios da aldeia Hoximu é a concretização de um desejo subterrâneo que se infiltra entre alguns brasileiros ‑ especialmente larga faixa da população do Estado de Roraima ‑ indignados com a extensão da reserva Yanomami (9,4 milhöes de hectares). Cercados por inimigos não‑declarados ‑ população branca, políticos, madeireiros e garimpeiros ‑ todos ávidos pelas riquezas de suas terras, os Yanomami são o povo mais primitivo do planeta, mas nem por isso deixaram de notar a barbárie dos garimpeiros brancos que torturaram e estriparam mulheres e crianças índias. Duas semanas após o massacre, a opinião pública mundial se horrorizou com o cenário de destruição na aldeia: marcas de balas em panelas e outros objetos domésticos, esqueletos de maloca, sinais inequívocos de violência, morte e dor. Entranhada na selva, a aldeia estava silenciosa como o campo de morte que realmente era. Depois que as botas dos garimpeiros esmagaram os folhas secas no chão da aldeia e suas armas dilaceraram corpos e almas Yanomami, restou um silêncio impressionante em Hoximu. Brisa de morte soprando entre árvores. Dor. Nenhum cadáver foi encontrado. 0 povo de Omã nao deixa os corpos de seus irmãos expostos. Nas aldeias próximas eles foram cremados e suas cinzas consumidas pelos sobreviventes. Com isso, ganhou força a versão ‑ que interessa de perto aos “brancos” ‑ de que nao teria ocorrido massacre e que os sobreviventes teriam “criado” a história para chamar a atenção da opinião pública. 0 tempo encarregou‑se de fazer baixar sobre o caso um véu de descaso e esquecimento, passado o primeiro momento, mesmo a imprensa abandonou o assunto. A exposição Hoximu lembra o massacre de 1993, mas a intenção é alertar principalmente para o gradual genocídio Yanomami, que iniciou tão logo os indios entraram em contato com os brancos e prossegue pelos dias atuais, sob o olhar complacente de boa parte da Nação brasileira.