Bibliography14 – Hoximu

Hoximu

  • 1994 – Galeria Theodoro Braga, Belém, Brazil
  • Sonia Vinas

Portuguese
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A vida vale mais que o ouro

(Davi Kopenawa)

Quando um Yanomami morre, seus objetos são des­truidos, seu cão sacrificado, seus abrigos de caça de­vastado . Ninguém fala daquele que se foi. E, no entanto, todos desejam que seu espírito continue a animar a Terra. Colocado em posicao fetal, com o rosto pintado de negro, o morto fica envolvi­da em sua própria rede, dentro de uma caixa de madeira entre duas árvores. Mais tarde, depois de cremado, parte de suas cin­zas são consumidas pelos amigos, que Ihe deseiam absorver os dons e os forças. Treze de agosto de 1993. Na aldeia Hoximu, na Serra Pari­mã, nao houve a Festa dos Mortos para dezenas de Yanomamis assassinados por garimpeiros brancos. Inicialmente, imaginou‑se que o massacre havia ocorrido em terras brasileiras, mas investi­gações posteriores concluiram que as mortes ocorreram em terri­tório venezuelano. Brasil ou Venezuela, o local nao é tão relevante ‑ pelo menos para o artista plástico Klinger Carvalho, que na exposição “Hoxi­mu” lembra o genocídio Yanomami. Para Klinger, mais importan­te é denunciar que o massacre dos índios da aldeia Hoximu é a concretização de um desejo subterrâneo que se infiltra entre al­guns brasileiros ‑ especialmente larga faixa da população do Es­tado de Roraima ‑ indignados com a extensão da reserva Yanomami (9,4 milhöes de hectares). Cercados por inimigos não‑declarados ‑ população branca, políticos, madeireiros e garimpeiros ‑ todos ávidos pelas riquezas de suas terras, os Yanomami são o povo mais primitivo do plane­ta, mas nem por isso deixaram de notar a barbárie dos garimpei­ros brancos que torturaram e estriparam mulheres e crianças índias. Duas semanas após o massacre, a opinião pública mundial se horrorizou com o cenário de destruição na aldeia: marcas de ba­las em panelas e outros objetos domésticos, esqueletos de malo­ca, sinais inequívocos de violência, morte e dor. Entranhada na selva, a aldeia estava silenciosa como o campo de morte que real­mente era. Depois que as botas dos garimpeiros esmagaram os folhas secas no chão da aldeia e suas armas dilaceraram corpos e almas Yanomami, restou um silêncio impressionante em Hoximu. Brisa de morte soprando entre árvores. Dor. Nenhum cadáver foi encontrado. 0 povo de Omã nao deixa os corpos de seus irmãos expostos. Nas aldeias próximas eles fo­ram cremados e suas cinzas consumidas pelos sobreviventes. Com isso, ganhou força a versão ‑ que interessa de perto aos “bran­cos” ‑ de que nao teria ocorrido massacre e que os sobreviventes teriam “criado” a história para chamar a atenção da opinião pú­blica. 0 tempo encarregou‑se de fazer baixar sobre o caso um véu de descaso e esquecimento, passado o primeiro momento, mesmo a imprensa abandonou o assunto. A exposição Hoximu lembra o massacre de 1993, mas a in­tenção é alertar principalmente para o gradual genocídio Yano­mami, que iniciou tão logo os indios entraram em contato com os brancos e prossegue pelos dias atuais, sob o olhar complacente de boa parte da Nação brasileira.

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